O POBRE COITADO…

Um dia em que, ao dirigir meu carro, demorei um pouco para arrancar no sinal verde, enquanto nossos pacientes concidadãos desencadeavam, sem esperar, suas buzinas as minhas costas, lembrei-me, de repente, de outra aventura que ocorrera nas mesmas circunstancias. Uma motocicleta dirigida por um homenzinho magro, de calças de golfe, me havia ultrapassado e se instalara a minha frente, no sinal vermelho. Com a parada, o homenzinho deixou morrer o motor e esforçava-se, em vão, para dar-lhe novo alento. No sinal verde, pedi-lhe, com minha habitual delicadeza, que tirasse a motocicleta do caminho para eu poder passar. O homenzinho enervava-se ainda com seu motor ofegante. Respondeu-me, pois, de acordo com as regras da cortes ia parisiense, que fosse para o inferno. Insisti, sempre com polidez, mas com um leve tom de impaciência na voz. Fez-me logo saber que, de qualquer maneira, me mandava ao inferno a pé ou a cavalo. Durante esse tempo, já se faziam ouvir, atrás de mim, algumas buzinas. Pedi, com mais firmeza, a meu interlocutor que fosse educado e considerasse que estava atrapalhando o transito. O irascível personagem, exasperado sem duvida pela ma vontade já evidente de seu motor, informou-me que, se eu estivesse desejando o que ele chamava uma surra, daria uma com todo prazer. Tanto cinismo encheu-me de furor e sai do meu carro com a intenção de dar um tranco nesse desbocado. Não me imagino covarde (mas o que não se imagina!), e meu adversário não chegava a meus ombros, meus músculos sempre me serviram bem. Creio, ainda hoje, que a surra que ele me ofereceu teria sido mais recebida do que dada. Mas, mal pusera os pés no chão, quando, da multidão que começara a juntar-se, saiu um homem que se precipitou sobre mim para me garantir que eu era o ultimo dos homens e que ele não permitiria que eu batesse numa criatura que tinha uma motocicleta entre as pernas e se encontrava, portanto, em franca desvantagem. Enfrentei esse mosqueteiro mas, na verdade, sequer o vi. Com efeito, mal voltara a cabeça, quando ouvi, quase ao mesmo tempo, a motocicleta voltar a disparar e recebi uma pancada violenta no ouvido. Antes de poder registrar o que se havia passado, a motocicleta afastou-se. Atordoado, avancei mecanicamente para o d’Artagnan, quando, no mesmo momento, um concerto exasperado de buzinas se ergueu da fila já considerável de veículos. Voltava o sinal verde. Então, ainda um pouco desnorteado, em vez de dar uma sacudida no imbecil que me havia interpelado, voltei docilmente para o meu carro e arranquei, enquanto, a minha passagem, o imbecil me saudava com um “Pobre coitado!’, de que ainda me lembro.

A Queda – Albert Camus

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