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O TERROR DOS TERRORES

Posted in De tudo um pouco, Lendo e Relendo com as tags , , , on Setembro 28, 2009 by Fernando Gomes

O problema que aqui apresento não consiste em rediscutir o lugar humanidade na escala dos seres viventes (– o homem é um fim –): mas que tipo de homem deve ser criado, que tipo deve ser pretendido como sendo o mais valioso, o mais digno de viver, a garantia mais segura do futuro. Este tipo mais valioso já existiu bastantes vezes no passado: mas sempre como um afortunado acidente, como uma exceção, nunca como algo deliberadamente desejado. Com muita freqüência esse foi precisamente o tipo mais temido; até ao presente foi considerado praticamente o terror dos terrores; – e devido a esse terror, o tipo contrário foi desejado, cultivado e atingido: o animal doméstico, o animal de rebanho, a doentia besta humana: o cristão…

 - O Anticristo By Friederich Wilhelm Nietzsche

OBS: Odiado por uns, amado por outros, o Anticristo é talvez a obra mais controversa e interessante deste pensador. Em minha opinião, deixando de lado a opinião dele a respeito deste tema (cristianismo). O grande ganho lendo este livro é que ele lhe faz pensar, de verdade… vale a pena dar uma Olhada..

;)

VIRTUDE SEM MORALISMOS

Posted in De tudo um pouco, Lendo e Relendo on Abril 23, 2009 by Fernando Gomes

O que é bom? – Tudo que aumenta, no homem, a sensação de poder, a vontade de poder, o
próprio poder.
O que é mau? – Tudo que se origina da fraqueza.
O que é felicidade? – A sensação de que o poder aumenta – de que uma resistência foi superada.
Não o contentamento, mas mais poder; não a paz a qualquer custo, mas a guerra; não a virtude,
mas a eficiência (virtude no sentido da Renascença, virtu(1), virtude desvinculada de moralismos).
Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio de nossa caridade. E realmente
deve−se ajudá−los nisso.
O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos
malogrados e dos fracos – o cristianismo…

O Anticristo By Friedrich Wilhelm Nietzsche

PAVOR PRECOCE…

Posted in Lendo e Relendo on Março 31, 2009 by Fernando Gomes

Embora não sejamos de modo algum pessoas muito ricas, aqui na Estíria* vivemos em um castelo, ou schIoss. Com uma pequena renda pode-se viver muito bem nessa parte do mundo. Oitocentas ou novecentas libras por ano – dinheiro que na Inglaterra nos deixaria muito aquém do padrão de vida das pessoas abastadas – aqui são capazes de fazer milagres. Meu pai é inglês e eu assino um nome inglês, embora jamais tenha estado na Inglaterra. E nessa terra solitária e primitiva, onde tudo é tão incrivelmente barato, não vejo como qualquer quantidade de dinheiro a mais pudesse aumentar nosso conforto material ou nos trazer mais luxo.
Meu pai, que serviu no Exército austríaco até se reformar com uma pensão e a renda de seu patrimônio, comprou essa residência feudal junto com a pequena propriedade que a circunda por um preço irrisório.
Nenhum lugar poderia ser mais pitoresco ou solitário. O castelo fica numa pequena elevação dentro de uma floresta. A estrada, estreita e muito antiga, passa diante da ponte levadiça – que jamais vi levantada, em toda minha vida – e do fosso alagado embaixo dela, repleto de carpas, navegado por muitos cisnes e com a superfície tomada por lírios d’água.
Sobre tudo isso se ergue o schloss com a fachada de muitas janelas, suas torres e a capela gótica.
A floresta se abre numa clareira irregular e muito pitoresca diante do portão e, à sua direita, uma antiga ponte gótica, como um arco de pedra, transporta a estrada por sobre um rio que se perde em curvas através das densas sombras da floresta.
Disse que era um lugar muito solitário, veja se não é verdade: partindo da porta de entrada, a floresta que circunda o castelo se estende quinze milhas para a direita e doze para a esquerda. A aldeia habitada mais próxima fica a mais ou menos sete de suas milhas inglesas para a esquerda, e o castelo vizinho, ainda ocupado e com algumas associações históricas, é o schloss do velho general Spielsdorf, que se situa a aproximadamente vinte milhas para a direita.
Disse “a aldeia habítada mais próxima” porque existe, a apenas três milhas para oeste, na direção do castelo do general Spieldorf, uma aldeia em ruínas, com sua pequena igreja, agora destelhada, ao lado da qual estão os túmulos cobertos de musgo da orgulhosa família – hoje extinta – dos Karnstein, antigos proprietários do castelo abandonado que, de dentro da floresta, avista as ruínas silenciosas da aldeia deserta.
Com relação às causas do abandono desse lugar melancólico, existe uma lenda que lhe contarei num outro momento.
Agora devo falar do pequeno grupo familiar que habita nosso schloss. Não incluo os empregados e dependentes que vivem no pavilhão anexo ao castelo. Ouça com espanto! Meu pai, que é o homem mais gentil do mundo – mas está ficando velho – e eu, que na época dessa história, há oito anos, tinha 19. Eu e meu pai constituímos toda a família no castelo. Minha mãe, dama de uma nobre família aqui da região de Graz, morreu na minha primeira infância, mas tive uma governanta, uma boa alma, que está comigo praticamente desde então. Não me lembro do tempo quando seu rosto gordo e bondoso não era uma imagem familiar e querida de minha memória. Chamada Madame Perrodon e nativa de Berna, seus cuidados e bondade de alguma forma compensaram a ausência de minha mãe, de quem não tenho nenhuma lembrança, tão pequena era quando a perdi. Era a terceira comensal em nosso pequeno grupo à mesa de jantar. Havia ainda uma quarta pessoa, Mademoiseile de Lafontaine, a senhora que fazia o que acredito vocês chamem finishing governess e falava francês e alemão. Madame Perrodon falava francês e alguma coisa parecida com inglês; eu e meu pai somávamos a isso nosso inglês que, por motivos patrióticos e para que não se perdesse como língua entre nós, usávamos todos os dias. O resultado era uma Babel que fazia rir os estranhos e que não tentarei reproduzir nessa narrativa. Havia ainda duas ou três jovens amigas, da minha própria idade, que nos visitavam ocasionalmente, por períodos curtos e longos; visitas que algumas vezes eu retribuía.
Eram esses nossos parcos recursos regulares de contato social. Havia, é claro, visitas esporádicas de nossos “vizinhos” de apenas cinco ou seis léguas de distância. Posso assegurar-lhe, no entanto, que ainda assim levava uma vida bastante solitária.
Minha governanta exercia tanto controle sobre mim quanto seria possível esperar de uma pessoa responsável sobre uma órfã de mãe, mimada por um pai que lhe permitia praticamente tudo.
O primeiro fato marcante da minha existência que produziu uma impressão terrível em minha mente, a qual, na verdade, nunca se apagou, foi um dos primeiros incidentes de que me lembro. Algumas pessoas pensariam que um fato tão banal não mereceria ser lembrado aqui; mas, com o seguir da narrativa, o senhor entenderá por que o menciono.

Carmilla By Joseph Sheridan Le Fanu

E POR FIM…O VAZIO…A VERDADE

Posted in Lendo e Relendo on Fevereiro 2, 2009 by Fernando Gomes

“O Que se chama de o espírito do nulo é onde não há nada. Ele não está incluído no Conhecimento do homem. Evidentemente o vazio é nada. Ao conhecer as coisas que existem, você pode saber que não existe. Esse é o vazio.

As pessoas neste mundo olham para as coisas erroneamente, e acham que o que não entendem deve ser o vazio. Este não é o verdadeiro vazio. Isso gera confusão.

No Caminho da estratégia, também aqueles que estudam como guerreiros, pensam que o que eles não podem compreender, em sua arte, é o vazio. Este não é o verdadeiro vazio.

Para atingir o caminho da estratégia, como um guerreiro, você que deve estudar integralmente, outras artes marciais, e não desviar sequer um pouco do caminho do guerreiro. Com seu espírito direcionado,
 acumule prática a cada dia, e a cada hora. polindo o espírito, coração e mente, e aguçando o olhar para a percepção e visão.
 

Quando se aparaguem todas as nuvens de confusão em seu espirito, Ai estará o verdadeiro vazio.”

Go Rin No Sho ( O Livro dos Cinco Anéis) O Livro do Vazio - Miyamoto Musashi

A SUTILEZA DO VENTO…

Posted in Lendo e Relendo on Janeiro 31, 2009 by Fernando Gomes

Alguns dos maiores estrategistas do mundo são preoculpados somente com o treino da espada, e limitam seus treinos somente à espada longa.”

 Go Rin No Sho ( O Livro dos Cinco Anéis) O Livro do Vento - Miyamoto Musashi

A DESTREZA DO FOGO…

Posted in Lendo e Relendo on Janeiro 29, 2009 by Fernando Gomes

“Assim como um homem pode derrotar dez homens, mil homens podem derrotar dez mil. Contudo, você pode tornar-se um mestre da estratégia treinando sozinho, para poder entender a estratégia do inimigo, sua força e recursos, bem como apreciar a forma de aplicar a sua estratégia para derrotar dez mil inimigos”.

 Go Rin No Sho ( O Livro dos Cinco Anéis) O Livro do Fogo - Miyamoto Musashi

A DETERMINAÇÃO DA ÁGUA…

Posted in Lendo e Relendo on Janeiro 28, 2009 by Fernando Gomes

” Na Estratégia, seu comportamento espiritual não deve ser diferente do normal. Tanto na luta quanto no dia-a-dia de sua vida, você deve ser determinado, apesar de calmo e sereno…”

 Go Rin No Sho ( O Livro dos Cinco Anéis) O Livro da Água - Miyamoto Musashi

A SOLIDEZ DA TERRA…

Posted in De tudo um pouco, Lendo e Relendo on Janeiro 27, 2009 by Fernando Gomes

“Conheça as coisas mais pequenas e as grandes coisas, as coisas mais superficiais, bem como as mais profundas. Como se fosse uma estrada reta traçada no chão … Estas coisas não podem ser explicadas em detalhe. De uma coisa, saiba dez mil coisas. Quando você atingir o Caminho da estratégia, não haverá coisa alguma que você não possa ver. Você deve estudar intensamente”.

  Go Rin No Sho ( O Livro dos Cinco Anéis) O Livro da Terra - Miyamoto Musashi

O POBRE COITADO…

Posted in Lendo e Relendo on Janeiro 21, 2009 by Fernando Gomes

Um dia em que, ao dirigir meu carro, demorei um pouco para arrancar no sinal verde, enquanto nossos pacientes concidadãos desencadeavam, sem esperar, suas buzinas as minhas costas, lembrei-me, de repente, de outra aventura que ocorrera nas mesmas circunstancias. Uma motocicleta dirigida por um homenzinho magro, de calças de golfe, me havia ultrapassado e se instalara a minha frente, no sinal vermelho. Com a parada, o homenzinho deixou morrer o motor e esforçava-se, em vão, para dar-lhe novo alento. No sinal verde, pedi-lhe, com minha habitual delicadeza, que tirasse a motocicleta do caminho para eu poder passar. O homenzinho enervava-se ainda com seu motor ofegante. Respondeu-me, pois, de acordo com as regras da cortes ia parisiense, que fosse para o inferno. Insisti, sempre com polidez, mas com um leve tom de impaciência na voz. Fez-me logo saber que, de qualquer maneira, me mandava ao inferno a pé ou a cavalo. Durante esse tempo, já se faziam ouvir, atrás de mim, algumas buzinas. Pedi, com mais firmeza, a meu interlocutor que fosse educado e considerasse que estava atrapalhando o transito. O irascível personagem, exasperado sem duvida pela ma vontade já evidente de seu motor, informou-me que, se eu estivesse desejando o que ele chamava uma surra, daria uma com todo prazer. Tanto cinismo encheu-me de furor e sai do meu carro com a intenção de dar um tranco nesse desbocado. Não me imagino covarde (mas o que não se imagina!), e meu adversário não chegava a meus ombros, meus músculos sempre me serviram bem. Creio, ainda hoje, que a surra que ele me ofereceu teria sido mais recebida do que dada. Mas, mal pusera os pés no chão, quando, da multidão que começara a juntar-se, saiu um homem que se precipitou sobre mim para me garantir que eu era o ultimo dos homens e que ele não permitiria que eu batesse numa criatura que tinha uma motocicleta entre as pernas e se encontrava, portanto, em franca desvantagem. Enfrentei esse mosqueteiro mas, na verdade, sequer o vi. Com efeito, mal voltara a cabeça, quando ouvi, quase ao mesmo tempo, a motocicleta voltar a disparar e recebi uma pancada violenta no ouvido. Antes de poder registrar o que se havia passado, a motocicleta afastou-se. Atordoado, avancei mecanicamente para o d’Artagnan, quando, no mesmo momento, um concerto exasperado de buzinas se ergueu da fila já considerável de veículos. Voltava o sinal verde. Então, ainda um pouco desnorteado, em vez de dar uma sacudida no imbecil que me havia interpelado, voltei docilmente para o meu carro e arranquei, enquanto, a minha passagem, o imbecil me saudava com um “Pobre coitado!’, de que ainda me lembro.

A Queda – Albert Camus

TENTAÇÃO

Posted in Lendo e Relendo on Novembro 7, 2008 by Fernando Gomes

O Empíreo. Ao meio o Senhor, no trono. À roda a corte celestial, com as suas jerarquias: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, virtudes, e coros.

RAFAEL (cantando)

No coro sideral o sol vai prosseguindo,
qual na origem lho hás dado, o curso harmonioso.
Tonitruante baixo em teu concerto infindo,
só mandando-lho tu, Senhor, terá repouso.
Sua luz dobra a nossa, enchendo-nos de espanto
não podermos sondar-lhe a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto.

GABRIEL (cantando)

E da terráquea esfera a máquina esplendente
segue em seu torvelino, eterno, arrebatado;
por que ora à luz dos céus florido Éden se ostente,
ora descanse envolta em negro véu bordado.
O mar espuma, troa, investe as brutas fragas,
que o repulsam desfeito, em nunca finda guerra.
Mas na perpétua luta, as rochas como as vagas
seguem juntas, sem termo, o volutear da terra.

MIGUEL (cantando)

Dos solos contra o mar, do oceano aos continentes,
jogam-se os temporais com ímpeto profundo;
zona de assolasses e criações potentes,
que desfaz e refaz perpetuamente o mundo.
Ígnea precede a morte ao trovejante horror.
Mas nós, os cortesãos da tua imensidade,
gozamos luz e paz por toda a eternidade.
Bendito sejas tu, Senhor! Senhor! Senhor!

OS TRÊS (juntos)

As tuas criações enchem os céus de espanto;
nem o arcanjo lhes sonda a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu mundo é hoje ainda enigma, assombro, encanto.

MEFISTÓFELES (cortejando ao Padre Eterno)

Inda enfim cá tornei. Visto quereres
saber por mim o que lá vai no mundo,
pronto; que antigamente (inda me lembra)
gostavas de me ouvir. É só por isso
que me tornas a ver entre esta súcia.
Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,
é coisa que não gasto; e mesmo escuso
deste augusto congresso expor-me às vaias.
Co’o meu patos tu próprio te ririas,
a não teres perdido esse costume.
Sei cá palavrear de sois! de mundos!
Toda a minha sabença é perder homens.
O deusito da terra está na mesma:
parvo como ab initio. Melhor fora
(digo eu cá) não lhe teres infundido
o raio dessa luz, que lá se chama
Razão, e que na prática só presta
para o tornar mais bruto que os mais brutos.
Com licença da Tua Majestade,
o que ele me parece, é gafanhoto
pernilongo, com mescla de cigarra,
já voador, já saltão, já num relvado
co’a sua solfa velha a estrugir tudo.
E vá lá, se da erva não saísse
inda era meio mal; mas tem o sestro
de se andar sempre à cata de imundícies.

O SENHOR

Parece-se contigo. O teu regalo
é esse: acusar sempre. Então no mundo
nada há bom?

MEFISTÓFELES

Não senhor. Quanto eu lá vejo
passa até de ruim. Chega a haver dias
que eu próprio tenho lástima dos homens,
coitados! nem me animo a atormentá-los.

O SENHOR

Viste Fausto?

MEFISTÓFELES

O Doutor?

SENHOR

Sim, o meu servo.

MEFISTÓFELES

Servo teu? guapo servo! o rei dos parvos.
Seu comer e beber são do outro mundo.
Pasce-se no fervor da cachimónia,
que o traz há muito aéreo; em suma, é doido,
e ele próprio o suspeita. Ambiciona
cá do céu as estrelas mais formosas,
da terra gozos máximos. Nem perto
nem longe, vê, nem sonha, em que se farte.

O SENHOR

Por enquanto, anda à toa; em breves dias
lhe darei claridade. O fazendeiro
antevê, no abrolhar, a flor e o fruto.

MEFISTÓFELES

Quer Vossa Majestade uma apostinha?
Verá se também este se não perde,
uma vez que me deixe encaminhá-lo.

O SENHOR

Deixo, enquanto for vivo. Onde há cobiças,
é natural o errar.

MEFISTÓFELES

Muito obrigado.
Pois co’os vivos também é que me eu quero;
com defuntos embirro; o meu regalo
é tentar caras rechonchudas, frescas;
sou como o gato: de murganho morto
não faço caso; o meu divertimento
é correr e arpoar aos que me fogem.

O SENHOR

Como queiras. Permito-te que o tentes.
Se lograres caçá-lo desbaptiza-o,
e inferna-o muito embora. Mas, corrido
fiques tu in æternum, se confessas
que o bom, dado que errar às vezes possa,
nunca nos sai da estrada, a recta, a nossa.

MEFISTÓFELES

Bom. Não lhe há-de tardar o desengano,
Ganhei tão certo a aposta, como é certo
chamar-me eu Mefistófeles. Se eu vingo
na empresa, a palma do triunfo é minha.
Há-de se regalar de comer terra,
como a tia serpente.

O SENHOR

Alargo a vénia.
Outorgo, enquanto andares nesse empenho,
poderes incarnar, viver co’os homens.
Aos demos como tu, maraus e alegres,
nunca os aborreci tão cá de dentro,
como aos demais que a minha essência negam.
O homem cansa depressa; e quando cansa
nada mais quer fazer. Em razão disso
é que eu houve por bem dar-lhe estes sócios
que o despertam, activam; potestades
criadoras até!

(Voltando-se para os anjos)

Vós outros, filhos
legítimos de Deus! regozijai-vos
nesta mansão das perenais delícias,
aqui onde o poder que vive eterno
e eternamente cria, vos enlaça
com vínculos de amor indissolúveis.
E essas do mundo cambiantes cenas,
ide assentando na vivaz memória!

(Cerra-se o empíreo, dissipando-se os espíritos).

MEFISTÓFELES (só)

E está bem conservado. Não desgosto
de o ver de vez em quando. O meu sistema
de não quebrar com ele inteiramente,
mesmo assim, não é mau. Tamanho vulto
conversar tanto à mão co’um diabrete
não é leve honraria.
E se eu lhe ganho a aposta! oh! que ufania!…

 - Fausto By Johanm Wolfgang von Goethe - Quadro I – Prólogo do céu.